25 de abril de 2016

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, - soneto camoniano


O soneto dito por Rui Reininho.

Em "Um Poema por Semana" 
15 poemas em 75 dias, ditos por 75 pessoas
uma ideia de Paula Moura Pinheiro. 
 www.rtp.pt/umpoemaporsemana 



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mór espanto:
que não se muda já como soía.

Luís de Camões


Fonte:

Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de  Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 289.


Imagem encontrada aqui.

LUÍS DE CAMÕES, O MAIOR DOS PORTUGUESES - testemunho de Manuel Alegre


Manuel Alegre (1936-)
(c) Luiz Carvalho, 2013





"Neste dia em que se assinala a morte de Luís de Camões [10.06.2015], lembremos que com a sua obra, Camões fundou uma língua e, com ela, o cartão de identidade de todos nós.
Se outros fundaram o reino, a ele cabe a suprema glória de ter fundado a língua que falamos. Tanto basta para que ele seja para todo o sempre o maior dos portugueses, mesmo que tenha morrido na miséria e tenha sido enterrado como um cão à porta de uma igreja.
Deixo-vos excerto de “Com que pena” [do livro homónimo, 1992], poema em sua homenagem."


COM QUE PENA



Era ainda um léxico sibilante
um gutural murmúrio dis-
sonante. Diante da folha branca
Luís Vaz de Camões.
Ninguém sabe com
que pena com que
tinta em
que papel.
Ninguém saberá nunca
com que
letra.
E isso é como ter perdido
uma parte do nosso próprio rosto.

Era muito antes de Mallarmé escrever
que a forma chamada verso
é pura e simplesmente a literatura.
Muito antes das teses de Pound sobre a melopeia
e de Shelley ter dito que os poetas
são os ignorados legisladores da humanidade.
  
Talvez Camões soubesse que Dante di-
vi-
dia
as palavras consoante sua música.
Sabia por certo que o poeta é um fabbro 
(mais tarde Pound diria um versemaker
e João Cabral de Melo Neto – contra
a poesia bissexta e a teoria da inspiração –
poria o acento tónico no fazer
e no sentido profissional da literatura).

Era muito antes de a poesia ter entrado
em Portugal para a universidade.

Talvez soubesse o que mais tarde
Eliot havia de formular: a música
da poesia é a música latente do falar
corrente. A música latente do falar corrente
do país do poeta. E também
cacofonia dissonância prosaísmo
como parte da estrutura do poema.

Diante da folha branca
sentado na margem do Mandovi
em Goa. Ou talvez
junto de um seco estéril adverso verbo.

Então o com e o que
as sílabas mais ásperas e as rudes
consoantes puseram-se a cantar.
Alquimia – poderia dizer Rimbaud
muito mais tarde. Mas era
(segundo Pedro Nunes)
outro mar outro céu outras estrelas.
Da obscura substância de uma antiga prosódia
uma língua nascia.

E se alguém perguntasse como
não morria
tu dirias canção que
porque
poesia.



Poema “Com que pena” do livro Com que pena: vinte poemas para Camões. Lisboa: Dom Quixote, 1992 / 2.ª ed., “revista”, Vinte poemas para Camões. Lisboa: Dom Quixote, 2016, pp. 25-27. – [Texto citado a partir da 2.,ª ed.].



Fonte: Perfil do autor no Facebook, a 11.06.2015.



17 de abril de 2016

O grande Camões - um épico, um herói, um santo, depoimento de Guerra Junqueiro



Guerra Junqueiro (1850-1923)






Camões é o génio lusitano, a idealidade da raça num herói. Pertence ao grupo dos imortais, dos que viveram no mundo o breve instante, com olhos de eternidade e de infinito.
A vida resolve-se em dor e amor, e ele amou e sofreu como poucos homens. Amou a justiça, amou a virtude, amou a beleza. Amou a pátria na humanidade, a humanidade no universo, e o universo em Deus. E desse imenso amor fez colheita de luto e colheita de dor. Semeou beijos e nasceram-lhe víboras. Pôs na fronte da Pátria um diadema de estrelas, e recebeu em galardão uma coroa de cardos. A inveja, o rancor, a estupidez, a mentira, a hipocrisia, a ferocidade, – bando de lobos e de hienas, vão atrás dele continuamente. Não o deixam, rasgam-no, dilaceram-no. Toda a sua existência de herói e de mártir é a escalada abrupta de um calvário. O sangue do coração evaporou-se-lhe em génio e verteu-se-lhe em lágrimas. Foi Apolo na cruz, aedo e Messias, bardo e Redentor. Cantou como um épico, lidou como um herói e acabou como um santo.

Guerra Junqueiro

Em: “A festa de Camões” – ‘Discurso pronunciado a 10 de junho [de 1912] em Zurique, num banquete da colónia portuguesa’, in Prosas dispersas. Porto: Livraria Chardron, 1921, p. 95-96.

11 de abril de 2016

PÔR FLORES NO TÚMULO DE CAMÕES, de joelhos - Testemunho de Jorge de Sena

Túmulos de Luiz Vaz de Camões, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Fonte da imagem, aqui.


CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS


Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena, Assis, 11.06.1961

Jorge de Sena (1919-1978)



















In Metamorfoses. Lisboa, 1963. – reprod. em Poesia II. 2.ª ed., Lisboa: Edições 70, 1988, p. 93.