5 de novembro de 2017

A vida ficcionada de Luís de Camões, uma série para a RTP, por Carlos Barradas


A vida ficcionada de Luiz de Camões

Série de ficção baseada na vida de Luís de Camões (1524-1580), desde a sua juventude em Coimbra e no Paço, em Lisboa, onde lhe reconhecem o talento, passando por Goa, África, Macau. Termina com o regresso a Lisboa, numa vida de aventuras errantes, amores ardentes e infortúnios.



Ficha Técnica

Título/ano: Aquela cativa que me tem cativo, 1995.

Intérpretes: 
Diogo Infante, Alexandra Lencastre, Almeno Gonçalves, 
Ana Nave, Fernando Heitor, Henrique Viana, 
Leonor Alcácer, Luís Alberto

Realização: Carlos Barradas

Produção: Luís de Freitas
Autoria: Arlete Perdigão, Eduardo Cruzeiro

Duração: 51 minutos





Introdução 1, em Aquela cativa que me tem cativo



D. Diogo de Menezes caminha para o cadafalso por se ter recusado a entregar a praça de Cascais ao novo Rei de Portugal, Filipe de Espanha. 
Durante a caminhada vão repassando pela sua memória toda a vida e recordações do seu companheirismo e amizade por Luís Vaz de Camões. 
Quando desce a espada para o corte final com a vida, inicia-se o flash back desta história.


Cena do naufrágio, em Aquela cativa que me tem cativo

Naufrágio da nau em que Luís de Camões regressa definitivamente a Portugal


31 de agosto de 2017

Por este rio acima: as viagens de Fernão Mendes Pinto, recontadas e cantadas por Fausto



Por este rio acima: as viagens de Fernão Mendes Pinto (1982) é o primeiro álbum da trilogia que compreende ainda Crónicas da Terra Ardente (1994) e Em busca das Montanhas Azuis (2011).
No primeiro disco, Fausto inspirou-se no livro de viagens de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614); para o seguinte partiu da igualmente célebre obra História Trágico-marítima (1735) compilada por Bernardo Gomes de Brito. A uni-los todos, as aventuras atribuladas dos lusos por mares e outras terras do globo.
É considerado pela crítica um dos álbuns mais marcantes da música popular portuguesa.



Edição original:


Por este rio acima: as viagens de Fernão Mendes Pinto  – LP duplo (disco em vinil); duração 76:29. 1.ª ed., Portugal: Triângulo / Sassetti, 1982. – Gravado de março a set. 1982 no Angel Studio. Letras e músicas de Fausto; arranjos: Eduardo Paes Mamede e Fausto; orquestrações, direção musical e produção: Eduardo Paes Mamede; captação de som: José Fortes, Rui Novais, Luís Flor; misturas: José Fortes, Luís Flor em "O barco vai de saída" e "A guerra é a guerra"; capa: José Brandão; foto: João Castel-Branco.

Reedição:

Por este rio acima – CD duplo; duração ca 90 min; stereo (12cm); com folheto. Portugal: CBS, 1984. – Autor: Fausto; outros responsáveis: Pedro Caldeira Cabral; Júlio Pereira. – Letras, músicas, voz, viola acústica: Fausto; guitarra portuguesa: Pedro Caldeira Cabral; viola braguesa e cavaquinho: Julio Pereira.



Faixas

Reprodução integral do LP duplo
em  vídeo, no Youtube - clique aqui ou aqui (Fonoteca)

Disco 1
É o mar que nos chama (instrumental)           2:43
O barco vai de saída                                             3:43
Porque não me vês                                               5:12
A guerra é a guerra                                               4:25
De um miserável naufrágio que passámos      3:02
Como um sonho acordado                                  6:00
A ilha                                                                       3:40
A voar por cima das águas                                  3:52
Olha o fado                                                             3:40

Disco 2
Por este rio acima                                                 4:55
O cortejo dos penitentes                                     6:14
O romance de Diogo Soares                               5:31
Navegar, navegar                                                   4:05
O que a vida me deu                                              3:37
Lembra-me um sonho lindo                                6:25
Quando às vezes ponho diante dos olhos         7:36




Fausto Bordalo Dias
Fonte da imagem: página oficial no Facebook.

As letras das canções – a Poesia de Fausto


O barco vai de saída


O barco vai de saída
Adeus ó cais de Alfama
Se agora vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P’ra lá da loucura
P’ra lá do equador

Ah! mas que ingrata ventura
Bem me posso queixar
da pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas aí quebra o mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida
Sem contar essa história escondida
Por servir de criado a essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa

Gingão de rota batida
Corsário sem cruzado
Ao som do baile mandado
Em terras de pimenta e maravilha
Com sonhos de prata e fantasia
Com sonhos da cor do arco-íris
Desvairas se os vires
Desvairas magia

Já tenho a vela enfunada
Marrano sem vergonha
Judeu sem coisa nem fronha
Vou de viagem ai que largada
Só vejo cores ai que alegria
Só vejo piratas e tesouros
São pratas são ouros
São noites são dias
Vou no espantoso trono das águas
Vou no tremendo assopro dos ventos
Vou por cima dos meus pensamentos
Arrepia
Arrepia
E arrepia sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa

O mar das águas ardendo
O delírio dos céus
A fúria do barlavento
Arreia a vela e vai marujo ao leme
Vira o barco e cai marujo ao mar
Vira o barco na curva da morte
Olha a minha sorte
Olha o meu azar

E depois do barco virado
Grandes urros e gritos
Na salvação dos aflitos
Esfola
Mata
Agarra ai quem me ajuda
Reza
Implora
Escapa ai que pagode
Reza tremem heróis e eunucos
São mouros são turcos
São mouros acode
Aquilo é uma tempestade medonha
Aquilo vai p’ra lá do que é eterno
Aquilo era o retrato do inferno
Vai ao fundo
Vai ao fundo
E vai ao fundo sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa.


Porque não me vês


Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono


A guerra é a guerra


I
Salto no escuro
Entre dentes trago a faca
E nos meus olhos coloridos
Juro
Vem ver o fogo no mar
Os peixes a arder
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Voando em arco
Esgueiro o corpo num balanço
Como um piloto do inferno
Assalto
Nas asas guerreiras de um anjo
Seja louvado
Atacamos mui baralhados
Como um bando
Endiabrado
Por Jesus na sua cruz
Chora por mim, ó minha infanta
Escorre sangue o Céu e a Terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a guerra

Coro I:
Malaca, Malaca
A guerra é a Guerra
No céu e na terra
Nos dentes a faca

Coro II
Avanço e Avanço
A guerra é a Guerra
No Céu e na Terra
Balanço, Balanço

Coro III
Cruzado, cruzado
A guerra é a Guerra
No Céu e na Terra
O mais enfeitado
Largar, largar
O fogo no mar

II
Seja bendito
De todos o mais enfeitado
Olha p’ra mim o mais guerreiro
Ao vivo
Olha p’ra mim o teu amado
E o Céu a arder
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Barcos em chamas
Erguidas
Parecia coisa sonhada
Queimados
Os gritos horrendos da besta
Ferida
Que lá dentro ardiam homens
Encurralados
E cá fora à cutilada
Decepados
P’la calada
Pelos peitos já desfeitos
Chora por mim. Ó minha infanta
Escorre sangue o Céu e a Terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a Guerra

Coro I:
Malaca, Malaca
A guerra é a Guerra
No céu e na terra
Nos dentes a faca

Coro II
Avanço e Avanço
A guerra é a Guerra
No Céu e na Terra
Balanço, Balanço

Coro III
Cruzado, cruzado
A guerra é a Guerra
No Céu e na Terra
O mais enfeitado
Largar, largar
O fogo no mar

III
Foge saloio
Eh parolo
Aguenta António de Faria
E a fidalguia
Todo o massacre
E todo o desconsolo
Que já lá vem o Coja Acém
E o mar a arder
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Ó Ana vem ver
Diz-nos adeus o pirata
O labrego
Lá de cima daquele mastro
Trocista e airoso
Mostrando o traseiro cafre
Preto escuro de um negro
Levando-nos couro e tesouro
Rindo de gozo
Perdeu-se o resto na molhada
Pelo estrondo
Na quebrada
No edema da gangrena
Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o Céu e a Terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a guerra


De um miserável naufrágio que passámos


O escuro é muito grande
O tempo é muito frio
O mar é muito grosso
O vento é muito rijo
As águas são cruzadas
As vagas levantadas

Eh bruto corta-me esses mastros
Aguenta a popa e vira a proa
Ajusta-me esses calabretes
Baldeia fazendas à toa
Descarrega esse convés
Saltam braços
Voam pés
Vomitam pragas num estardalhaço
Os corpos atirados em pedaços
Dão à costa
Pela encosta
Choramos a nossa perdição
Dando muitas bofetadas
Em nós próprios sim senhor
Metidos num charco de água
Gritamos uma reza ao Salvador

O escuro é muito grande...

Salve-se agora quem puder
Por entre feridos e aflitos
Nas costas banhadas em sangue
Mordem atabões e mosquitos
Gritam mudos
Ouvem surdos
Em trejeitos absurdos
Um marinheiro de cabeça toda aberta
C’os miolos todos podres quase inerte
Num boeiro
Ai que cheiro
E abraçado a mim logo expirou
Com provas de bom cristão
O que muito nos consolou
Não ter que o levar às costas
Enterrado
Abençoado e lá ficou

O escuro é muito grande...

Estando nós em grande perigo
Num enorme desvario
Nadaram dois marinheiros
E a pouco mais de meio rio
Arremeteram conta eles
Dois lagartos muito grandes
Que os esfarraparam todos em bocados
Com a qual vista ficámos assombrados
Ai socorro
Ai que eu morro
Livra que nos fomos logo a pique
E subitamente ao fundo
Com um negro pela mão
Tão pasmado e caladinho
Mas lá por dentro a cantar o cantochão


Como um sonho acordado


Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá ao fundo
Tenho medo Ó medo
Leva tudo é teu
Mas deixa-me ir

Arrasta-me à côncava funda
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p’lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes


A ilha


Olhamos tudo em silêncio
Na linha da praia
De olhos na noite suspensos
Do céu que desmaia
Ai Lua nova de Outubro
Trazes as chuvas e ventos
A alma a segredar
A boca a murmurar
Tormentos
Descem de nuvens de assombro
Tainhas e bagres
Se as naves embalam os peixes
Em certos milagres
Levita-se o corpo da alma
No choro das ladainhas
Na reza dos condenados
Nas pragas dos sitiados
Da ilha dos ladrões
Quem sai?
E leva este recado ao cais
São penas são sinais
Adeus

Livra-me da fome
Que me consome
Deste frio
Livra-me do mal
Desse animal
Que é este cio
Livra-me do fado
E se puderes
Abençoado
Leva-me a mim a voar
Pelo ar

[Santo Anjo
Vem
Peixe fresco
Cai
Meu Arcanjo
Vai
E leva-me a voar
Pelo ar
Ó milhafre lindo
Ó linda gaivota
Dá-me o teu peixe à mão
Coração bem-vindo
A voar pelo ar]

Como se houvesse um encanto
Uma estranha magia
O sol lentamente flutua
Nas margens do dia
Despe o meu corpo corsário
Seca-me a veia maruja
Morde-me o peito aos ais
Das brigas dos punhais

Da ilha dos ladrões
Quem sai?
E leva este recado ao cais
São penas são sinais
Adeus

Livra-me da fome
Que me consome
Deste frio
Livra-me do mal
Desse animal
Que é este cio
Livra-me do fado
E se puderes
Abençoado
Leva-me a mim a voar
Pelo ar

Andamos nus e descalços
Amantes sedentos
Se o véu da noite se deita
Na curva do tempo
Ai Lua nova de Outubro
Os medos são meus
Das chuvas e ventos
Da alma a segredar
Da boca a murmurar
Adeus


A voar por cima das águas


Coro
Ó ai meu bem
Como baila o bailador
Ó meu amor
A caravela também
Ó bonitinha
Ai que é das penas
Que é das mágoas
Sendo nós como a sardinha
A voar por cima das águas

Mandador
Vai de roda quem quiser
E diga o que tem a dizer

Coro
Certo!

1.º Pirata
Sonhei muitos muitos anos
Por esta hora chegada
De Lisboa para a Índia
Vou agora de abalada
Mas em frente de Sesimbra
Logo um corsário francês
Nos atirou para Melides
Com o barco feito em três
E por Deus e por El-Rei
Que grande volta que eu dei

Coro
Ó é tão lindo,
Ó é tão lindo

Ó ai meu bem
Como baila o bailador
Ó meu amor
A caravela também
Ó bonitinha
Ai que é das penas
Que é das mágoas
Sendo nós como a sardinha
A voar por cima das águas

Mandador
Ena que alegria enorme!
Uns mais ou menos conforme

Coro
Certo!

2.º Pirata
Mas que terras maravilha
mais parece uma aguarela
Que eu vejo da minha barca
branca, azul e amarela
A Lua dormia ali
e com o Sol é tal namoro
Que as montanhas estavam prenhas
e pariam prata e ouro
Com Jesus no coração
faz as contas ó Fernão

Coro
Ó é tão lindo,
Ó é tão lindo
Ó é tão lindo,
Ó é tão lindo

Ó ai meu bem
Como baila o bailador
Ó meu amor
A caravela também
Ó bonitinha
Ai que é das penas
Que é das mágoas
Sendo nós como a sardinha
A voar por cima das águas

Mandador
Mais cuidado no bailado!
Que andamos tão baralhados

Coro
Certo!

1.º Pirata
Nunca vi bichos medonhos
Tão soltos e atrevidos
Que nos fomos logo a pique
C'o bafo dos seus grunhidos
E todo nu sobre um penedo
De mãos postas a rezar
'Té me tremiam as carne
Por os não ter no lugar
'Inda por cima a chover
Vejam lá o meu azar

Coro
Ó é tão lindo,
Ó é tão lindo
Ó é tão lindo,
Ó é tão lindo

Ó ai meu bem
Como baila o bailador
Ó meu amor
A caravela também
Ó bonitinha
Ai que é das penas
Que é das mágoas
Sendo nós como a sardinha
A voar por cima das águas

Mandador
Eh valente rapazinho
A cantar ao desafio

Coro
Certo!

2.º Pirata
Matei mouros malabares
Quem foi à guerra fui eu
Afundei grandes armadas
Nunca ninguém me venceu
Mas ao ver o cu de um outro mouro
Foi tal susto grande e forte
Qu'inté a bexiga mijei
E de todo estive à morte
Siga a roda sem parar
Que a gente vai a voar!

Coro
Ó é tão lindo
Ó é tão lindo
Ó é tão lindo
Ó é tão lindo


Olha o fado


Eu cá sou dos Fonsecas
Eu cá sou dos Madureiras
De ferro e puro sangue
O que me corre nas veias
Nasci da paixão temporal
Do parto dos vendavais
Cresço num fragor da luta
Numa força bruta
P’ra além dos mortais
Mas tenho muitas saudades
Certas penas e desejos
E aquela louca ansiedade
Como um pecado
Meu amor se te não vejo
Olha o fado
Ora é tão vingativo
Ora é tão paciente
Amanhã é comedor
Hoje abstinente
Mentiroso alcoviteiro
Doce e verdadeiro
Uma vez conquistador
Outra vez vencido
Amanhã é navegante
Hoje é desvalido
Sensual aventureiro
Doido e bandoleiro

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Os lobos do mar
De olhos pregados nos céus
De cima dos chapitéus
Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Dos roubos dos mares
E na verdade o que vos dói
É que não queremos ser heróis


Por este rio acima


Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos laranjeiras
Campinas de trigo
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem

Por este rio acima
isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
das margens do rio
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem

Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima


O cortejo dos penitentes


No cortejo dos penitentes
Vão culpados pecadores da gula
Vão culpados da sensualidade
Castigados até à medula
Vão os tíbios e frouxos no amor
Imaculados como o Criador
Vão culpados por abstinência
Vão culpados das suas carências
No cortejo dos penitentes
Os homens cortam suas próprias carnes
São ofertas que fazem aos céus
Ao mais alto de todos os céus
No cortejo dos penitentes
Os sacerdotes da austera vida
Vão contentes e muito enfeitados
Sobre as cinzas dos sacrificados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto

No cortejo os penitentes
Bebem tragos da bebida amarga
Da urina que depois vomitam
Pela noite mal aventurada
No cortejo os penitentes
Comem postas de sangue coalhado
Da sangria dos outros romeiros
Suavemente mutilados
E cantam louvores
Ao Deus

Abranda Senhor
A pena dos mortos
P’ra que te louvem
Com sono quieto


O romance de Diogo Soares



Diogo Soares
O grande general,
Chamado “o Galego”
O homem dos olhares fatais
Comanda sessenta
Mil homens
De terras estranhas
Vencendo e lutando
Por quem paga mais
Eficaz nos sermões
Insinuante pois
Ganhou a simpatia
De Príncipes e Samurais
Já é Governador
Do Reino de Pegu
Mais forte do que o Rei
Mais rico por golpes mestrais

Naquela cidade
Vivia um mercador
De nome Mambogoá
De fortuna sem fim
E naquele dia
O dia das bodas
Casava uma filha
Com Manica Mandarim
Diogo Soares passou por ali
Ao saber da festa
Felicitou noivos e pais
E a noiva tão linda
Ofereceu-lhe um anel
Agradecendo a honra
Por gestos puros e sensuais
Então o galego
Em vez de guardar
O devido decoro
Prendeu-a e disse-lhe assim:
“Ó moça formosa
És minha, só minha
A ninguém pertences
A ninguém, senão a mim!”

O pai Mambogoá
Ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha
Ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus
Os joelhos em terra
No retrato da dor
Pedindo e implorando num pranto
“Eu peço-te Senhor
Por reverência a Deus
Que adoras concebido
No ventre sem mancha e pecado
Não tomes minha filha
Não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão
Que eu morro tão abandonado”

Mas Diogo Soares
Mandou matar o noivo
Que chorava abraçado
À moça assustada
Tremendo
E a noiva estrangulou-se
Numa fita de seda
Antes que a possuísse
À força o sensual galego
A terra e os ares
Tremeram com os gritos
Do choro das mulheres
Tamanhos que metiam medo
E o pai Mambogoá
Pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino
Acorda a cidade em sossego
“Ó gentes, Ó gentes
Saí como raios
Na ira das chuvas
Na ventania do açoite
E o fogo consuma
Seus últimos dias
E lhe despedace
As carnes no meio da noite”

Em menos de um credo
Numa grande grita
P’lo amor dos aflitos
Juntou-se ao velho o povo inteiro
Com tamanho furor
E sede de vingança
Arrastaram-no preso
Diogo Soares ao terreiro
E o povo a clamar
Que a sua veia seja
Tão vazia de sangue
De quanto está o inferno cheio
E subiu ao cadafalso
Cada degrau beijou
Murmurando baixinho
O nome de Jesus a meio

Seu filho Baltasar Soares
Que vinha de casa
O qual vendo assim levar seu pai
Lançou-se aos seus pés a chorar
E por largo tempo
Abraçados
No abraço dos mortais
“Senhor porque vos levam
Cruéis e vingativos
Senhor porque vos batem
E porque vos matam medonhos?”
“Pergunta-o aos meus pecados
Que eles to dirão
Que eu vou já de maneira
Que tudo me parece um sonho”

E foram tantas pedras
Sobre o padecente
Que este morreu bramindo
O rosário dos seus pecados
Ensopado na baba
Do ódio dos homens
Escuma animal
De todos os cães esfaimados

As crianças e os moços
Trouxeram seu corpo
Sem vida pelas ruas
Arrastado pela garganta
E a gente dava esmola
Oferecida aos meninos
Dava como se fosse
Uma obra muito pia e santa

Assim terminam os anais
Do grande general
Chamado “o Galego”
O homem dos olhares fatais


Navegar, navegar


Navegar navegar
Mas ó minha cana verde
Mergulhar no teu corpo
Entre quatro paredes
Dar-te um beijo e ficar
Ir ao fundo e voltar
Ó minha cana verde
Navegar navegar

Quem conquista sempre rouba
Quem cobiça nunca dá
Quem oprime tiraniza
Naufraga mil vezes
Bonita eu sei lá
Já vou de grilhões nos pés
Já vou de algemas nas mãos
De colares no pescoço
Perdido e achado
Vendido em leilão
Eu já fui a mercadoria
Lá na praça do Mocá
Quase às avé-marias
Nos abismos do mar

Navegar navegar
Mas ó minha cana verde
Mergulhar no teu corpo
Entre quatro paredes
Dar-te um beijo e ficar
Ir ao fundo e voltar
Ó minha cana verde
Navegar navegar

Já é tempo de partir
Adeus morenas de Goa
Já é tempo de voltar
Tenho saudades tuas
Meu amor de Lisboa
Antes que chegue a noite
Que vem do cabo do mundo
Tirar vidas à sorte
Do fraco e do forte
Do cimo e do fundo
Trago um jeito bailarino
Que apesar de tudo baila
No meu olhar peregrino
Nos abismos do mar

Navegar navegar
Mas ó minha cana verde
Mergulhar no teu corpo
Entre quatro paredes
Dar-te um beijo e ficar
Ir ao fundo e voltar
Ó minha cana verde
Navegar navegar


O que a vida me deu


Ó Mar
Leva tudo o que a vida me deu
Tudo aquilo que o tempo esqueceu
Leva que eu vou voltar
Ó Mar
Como quem vem
E regressa ao fundo
Do ventre da mãe

Tão indiferente
Consumiste na força bravia
Todo o encanto das coisas que havia
E lançaste na praia ardente
Náuseas e pragas
Despojos de almas
As carnes em chagas
As mágoas
Condenaste-me à noite
De sangue e fogo
E vento e sombras
Ao teu quebranto
Mas deixa-me ao menos
O corpo despido
Em descanso

Ó Mar
Lago imenso de oceanos salgados
Onde os rios também naufragados
Vão por fim descansar
Ó Mar
Tecem murmúrios
Sensuais
Como os amantes
Depois
Repousam em paz

No teu ciúme
Ó sereia do braço da ira
Seduziste na tua mentira
E arrastaste contigo o mundo
Todos os sonhos
Os meus desejos
Os suaves Outonos
E o Tejo
São saudades que eu tenho
Leve memória
Do que já fui
Que já não sou
Mas se tudo levaste
Leva enfim esta dor
Que ficou

Ó Mar
Leva tudo o que a vida me deu
Tudo aquilo que o tempo esqueceu
Leva que eu vou voltar
Ó Mar
Como quem vem
E regressa ao fundo
Do ventre da mãe


Lembra-me um sonho lindo


Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado
Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Canta rouxinol canta
Não me dês penas
Cresce girassol cresce
Entre açucenas
Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo
Em fumos de incenso

Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado
Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Ai, como eu te quero
Ai, de madrugada
Ai, alma da terra
Ai, linda
Assim deitada
Ai, como eu te amo
Ai, tão sossegada
Ai, beijo-te o corpo
Ai, seara
Tão desejada

Canta rouxinol canta
não me dês penas
cresce girassol cresce
entre açucenas
Afaga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o ventre ardendo
em fumos de incenso

Ai, como eu te quero
Ai, de madrugada
Ai, alma da terra
Ai, linda
Assim deitada
Ai, como eu te amo
Ai, tão sossegada
Ai, beijo-te o corpo
Ai, seara
Tão desejada


Quando às vezes ponho diante dos olhos


I
Quando às vezes ponho diante dos olhos
A lusitana viagem
Medonha
Que eu dobrei
Os tormentos passados
E os fados que chorei
Arde o corpo em oração
Entre pecado e perdão
Agonia o coração
E arde o corpo
Do cotovelo da terra
À pestana do mundo
Fui treze vezes cativo
Dezassete vendido
Mataram os mares
Milhares
Num gemido
Ai de mim sou missionário
Foge cafre
Já sou corsário
Marinheiro
Voluntário
Ai de mim.

Quando às vezes ponho diante dos olhos
A fúria da onda tremenda
Rasgada no vento
O assombro
Da fronha de um monstro
Que horrenda
Estampada no breu
Ai meu Deus
O aperto em que estou.

— Olha o cobre e o ouro
Olha o bobo que eu sou

— Que se escapa o tesouro
Que me dá a fraqueza

— Enriquece bandido
A saudade do Tejo

— O inventário da pressa
Meu amor dá-me um beijo

— Afasta-o do sentido
E lá vou eu desvalido

II
Quando às vezes ponho diante dos olhos
Os trabalhos tremendos
Os perigos
Que passei
O inferno maldito
Infinito
Que afrontei
Vem à boca uma prece
A alma inteira estremece
Arde
Grita
Enlouquece e vem à boca
Um amargo de morte arrefece-me o corpo
Um grande medo
Meu deus
Que estala no peito
Só o meu coração respira
Amores perfeitos
Que eu nem conto em segredo
Que eu risquei do enredo
Num latino arremedo
Que eu nem conto

Quando às vezes ponho diante dos olhos
Cobras
Lagartos
Mostrengos
Horríveis sarnentos
O delírio
Dos rios
Das selvas ardentes
Da febre a queimar
A matar
Terra à vista
Atenção

— Espia como mercador
Eu cá sou benfeitor

— Assalta como ladrão
Olha o rombo na quilha

— Olha a tua quadrilha
Quem me dera estar longe

— Empunha o machado
Ser um anjo ser monge

— Aguenta safado
Sendo o mais enjeitado

III
De Lisboa p’rá Índia
Da Tartária ao Sião
Da China à Etiópia
De Ormuz ao Japão
P’lo Cabo do Mundo
Passei por um triz
Da Ilha Maluca
À Arábia Feliz
São de todas as cores
As paixões os ardores
Na voragem do cio
O amor aplacado
Entre esteiras deitado
No porão do navio
Vai o sonho entornado

Quando às vezes ponho diante dos olhos
As guerras
Assaltos e gritas
O sangue a jorrar
A alagar
Os turcos
Senhora bendita
Lançados ao mar
A afundar
Tangendo panelas

— P’ró diabo que os leve
Infiéis tagarelas

— Filhos de Mafamede
Ai da vossa cegueira

— Dispara o roqueiro
No rescaldo da afronta

— Amordaça o escravo
Rezo pela desconta

— És cruzado és um bravo
Dos pecados sem conta

IV
De Lisboa p’rá Índia
Da Tartária ao Sião
Da China à Etiópia
De Ormuz ao Japão
P’lo Cabo do Mundo
Passei por um triz
Da Ilha Maluca
À Arábia Feliz
São de todas as cores
As paixões os ardores
Na voragem do cio
O amor aplacado
Entre esteiras deitado
No porão do navio
Vai o sonho entornado

Foi de fio a pavio
P’ró diabo que os leve
Infiéis tagarelas
Filhos de Mafamede
Ai da vossa cegueira
Dispara o roqueiro
Amordaça o escravo
És cruzado és um bravo
Espia como mercador
Assalta como ladrão
Olha o rombo na quilha
Empunha o machado
Olha a tua quadrilha
Aguenta safado
Dos pecados sem conta
És o mais enjeitado
O aperto em que estás
Olha o cobre e o ouro
Que se escapa o tesouro
Que te dá a fraqueza
Enriquece bandido
No rescaldo da afronta
Ai quem te dera estar longe
Ser um anjo ser monge
Reza pela desconta
Entre apupos e gritas
De mãos alevantadas
Treme o bom jesuíta
Ai Jesus que embrulhada
Em pouco mais de dois credos
Dois mil mortos no chão
Pelejando um milhão
Soçobrados em sangue
Estalam mil bofetadas
No traseiro de um cafre
Sobrevoa o milhafre
Seis cabeças rachadas
Muitas feridas e chagas
Numa grande chacina
Entre insultos e pragas
Chovem panelas de urina
Vinte e três afogados
Trinta e quatro perdidos
Nus e ajoelhados
Sem contar os aflitos
Pelas pernas abaixo
Vai o pobre de mim
De Quedá a Samatra
De Malaca a Pequim
Fugindo a sete pés
Quando estoira o convés
Perde-se ouro o provento
A prata fina a saúde
Mas glória santa me ajude
A dar graças a Deus
Misericórdia infinita
Pois eu não me lamento
Se ao fim de tantos tormentos
Escapei deles com vida

O Senhor seja louvado
Santos apostolados
Viva eu entre os mortais
Pois não mereci mais
Por meus grandes pecados