26 de julho de 2017

A FIDELIDADE A CAMÕES DE MARIA VITALINA LEAL DE MATOS


 
Pintura de Camões, pelo pintor Norberto Nunes.

"Foi nessa altura que entendi como valia a pena trabalhar sobre a grande literatura, o que não é uma verdade absoluta. Mas, como dizia Coimbra Martins, se não estamos apaixonados pela obra que trabalhamos, a rotina que se instala durante a pesquisa e a redação arrisca-se a frustrar o trabalho.
Por isso, a medo, escolhi Camões para a dissertação de doutoramento, e em boa hora. Nunca me cansei dele, o que não diz tanto da minha fidelidade, como da grandeza daquele “monstro de la naturaleza”, como lhe chama Faria e Sousa.”
Maria Vitalina Leal de Matos, Secretário: memórias, 2016, p. 421.

É o canto que difunde, que ilustra, que estimula, que perpetua a Fama, tema renascentista por excelência. Sem canto, também não haverá heróis, o povo degenera “não por falta de natura”, mas por falta de poetas que mantenham a sua memória.”
Maria Vitalina Leal de Matos, “Os Lusíadas”, in Dicionário de Camões, 2011.








A vida e a Obra





Maria Vitalina Leal [Maymone Martins] de Matos nasceu em 1939, em Áquila, na Itália.
É licenciada em Filologia Românica com uma tese final sobre A vivência do tempo em Fernando Pessoa (1963) e doutorada, em 1975,  em literatura portuguesa com o ensaio em dois volumes O canto na poesia épica e lírica de Camões: estudo da isotopia enunciativa, ambos os graus obtidos na FLUL.
É professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde lecionou de 1964 a 2002, ano em que se jubilou. Para além de ter lecionado Introdução aos Estudos Literários, consagrou-se sobretudo à docência no âmbito da Literatura Portuguesa Clássica, área em que privilegiou os Estudos Camonianos, contribuindo decisivamente para a sua renovação e aprofundamento. Tem uma extensa bibliografia nestas matérias e, no que a este blogue importa, é autora de numerosos artigos e livros de conteúdo camoniano. É considerada “a maior perita na vida e obra de Luiz de Camões” (cf. Ateneu livros) ou “a mais importante camonista viva” (cf. e-Cultura.pt do CNC).


Fez parte da Comissão Nacional da Unesco e do Conselho Superior da Universidade Católica. De 1988 a 1990, desempenhou o cargo de Conselheira para o ensino do Português junto da Embaixada de Portugal em Paris.
Em Paris, frequentou seminários da École Pratique des Hautes Études, tendo trabalhado sob a orientação de A. J. Greimas e Gérard Genette.
Dirigiu a Revista da Faculdade de Letras (1986-1988) e é membro de diversas organizações portuguesas e estrangeiras, nomeadamente do Conselho Geral da Comissão Nacional da UNESCO (1985-1988) e da Comissão Nacional da Língua Portuguesa (1989).
Proferiu inúmeras conferências em Portugal e no estrangeiro e colaborou, no domínio do ensaio e da crítica, em diversas publicações periódicas: Colóquio/Letras, Estudos Portugueses, Oceanos, Românica, Arquipélago, Brotéria e Arquivos do Centro Cultural Português. Colaborou com múltiplos verbetes em volumes coletivos, designadamente nos seguintes dicionários: no Dicionário de Literatura dir. por Jacinto do Prado Coelho, no Dicionário Biográfico Universal de Autores e na Biblos: Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa.


Como investigadora e ensaísta, publicou várias obras, entre as quais se destacam A poesia épica de Camões: tópicos para a leitura d' Os Lusíadas (1979, reed. em 2014); Introdução à poesia de Luís de Camões (1980); O canto na poesia épica e lírica de Camões: estudo da isotopia enunciativa (1981, reed. da tese de doutoramento); Ler e escrever (1987), Introdução aos estudos literários (2001), A vivência do tempo em Fernando Pessoa e outros ensaios pessoanos (1993). O seu último livro de ensaios intitula-se Camões: sentido e desconcerto (2011).
  

Depois de aposentada escreveu o romance Camões: este meu duro génio de vinganças (Arcádia, Babel, 2010); 


dois livros de poesia – Incandescências (Lisboa: Colibri, 2009), onde reúne os seus poemas escritos desde jovem até 1996, e Uma pequena voz: 1996-2002 (Idem, 2009); um “guião para um espetáculo” – A Paixão segundo Fernando Pessoa (Idem, 2009); um livro de prosa poética Prosas desfocadas (Faro: 4Águas; POPSul, 2013) 


e ainda recentemente, em 2016, publicou o seu livro autobiográfico intitulado Secretário: memórias.



Estudos camonianos em volume


  • (1975) O canto na poesia épica e lírica de Camões: estudo da isotopia enunciativa. – Tese de doutoramento em Literatura Portuguesa. Lisboa: FLUL. – 2 vols., [11] quadros dobr.; 30cm. – [Porbase indica ed. na INCM, 1975]. – V. 1981.
  • (1979) A lírica de Luís de Camões: textos escolhidos. Apresent. crítica, sel., not. e sugestões para análise literária de. Lisboa: Seara Nova - Ed. Comunicação. / 2.ª ed., 1981. – 200, [5] p.; col. Textos literários, 12. – Ed. com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. / 3.ª ed., 1988. / Com o título: Lírica de Luís de Camões: antologia. Apresent. crítica, sel., not. e glossário de Maria Vitalina Leal de Matos. Alfragide: Caminho, 2012.
  • (1979) A poesia épica de Camões: tópicos para a leitura d' Os Lusíadas. Lisboa: Ministério da Educação, S.E.J.D., F.A.O.J.. / Reeditado como: Tópicos para a leitura de Os Lusíadas. Lisboa: Verbo, 2003. – 122 p. (24cm); bibliografia, p. 119-122. / Reeditado como: Tópicos para a leitura de Os Lusíadas. Coimbra: Almedina, 2014. – 151 p. (21cm); bibliografia, 149-151.
  • (1980) Introdução à poesia de Luís de Camões. Lisboa: ICALP. – Col. Bibl. Breve, 50. / 2.ª ed., 1983. / 3.ª ed., 1992. – A versão digital reproduz a 3.ª ed.
  • (1980) Literatura portuguesa II: relatório sobre o programa. Lisboa: e.a..
  • (1981) O canto na poesia épica e lírica de Camões: estudo da isotopia enunciativa. Paris: FCG. – V. 1975.
  • (1981) O tempo na poesia camoniana. Paris: FCG, Centro Cultural Português.
  • (1987) Ler e escrever: ensaios. Lisboa: INCM. – Contém os textos [entre outros]: “O homem perante o destino na obra de Camões” (p. 65-78); O tempo na poesia camoniana; Reler Sá de Miranda; Sá de Miranda: o estoicismo feito poesia.
  • (2010) Camões: este meu duro génio de vinganças: romance. Lisboa: Arcádia.
  • (2011) Camões: sentido e desconcerto. Coimbra: CIEC.
  • (2016) Secretário: memórias. Silveira: Bookbuilders.
  • (2017) Obras Completas / de Luís de Camões. – I volume: Épica & Cartas. Org., introd. e notas Maria Vitalina Leal de Matos. Silveira: E-Primatur.




Estudos camonianos: artigos e comunicações

Anos 70

  • (1972) Jorge de Sena e os números de “Os Lusíadas»”, Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 5 (jan. 1972), 58-63.
  • (1974) Auto-retrato de Camões: o soneto «O dia em que eu nasci...», Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 19 (maio 1974), 23-27.
  • (1974) Auto-retrato de Camões: a hipertrofia do eu, Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 20 (jul. 1974), 13-21.
  • (1975) Recensão crítica a: Estudos Camonianos, de Cleonice Berardinelli, Colóquio/Letrasn.º 23 (jan. 1975) 88-89. 
  • (1976) Recensão crítica a: Ars combinatoria e algebra delle proposizioni in una lirica di Camões, de Luciana Stegagno Picchio, Colóquio/Letrasn.º 34 (nov. 1976), 87-88.
  • (1977) Diálogo sobre um dialéctico soneto, Brotéria, Lisboa, vol. 104 (1977), 209-213.

Anos 80

  • (1980) «Sôbolos Rios»: uma estética arquitectónica, Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 55 (maio 1980) 24-32. 
  • (1980) A poética d’“Os Lusíadas”, Brotéria, Lisboa, vol. 111 (jul.-set. 1980), 88. – [Número especial dedicado a Camões].
  • (1981) O ensino de Camões, in Estudos sobre Camões: páginas do Diário de Notícias dedicadas ao poeta no 4.º centenário da sua morte. Lisboa : INCM / DN, 209-217.
  • (1982) O ideal humano em Sá de Miranda e Luís de Camões, Brotéria, Lisboa, vol. 115 (1982), 24-50.
  • (1982) Reler Sá de Miranda, Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 65 (jan. 1982), 40-44; reprod. em MATOS 1987.
  • (1984) Camões lido por Diogo do Couto no “Soldado prático”, in IV Reunião Internacional de Camonistas: actas. Ponta Delgada: Univ. Açores, 359-372.
  • (1984) Cerimónia evocativa de Luís de Camões: os valores nOs Lusíadas, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Lisboa (jan.-jun.1984), 87-102.
  • (1985) A poesia de Camões na perspectiva da intertextualidade, in Revista da Universidade de Coimbra, Coimbra, v. 33 (1985), 68-86.
  • (1987) Fernando Pessoa o supra-Camões e outros ensaios pessoanos. – Ciclo de conferências organizado pela Academia das Ciências de Lisboa nas Comemorações do 50.º aniversário da morte de Pessoa. Lisboa: A.C.L.. – V. qual a participação de Vitaliana.
  • (1987) O homem perante o destino na obra de Camões, in Ler e escrever. Lisboa: INCM, 65-78.
  • (1987) O tempo na poesia camoniana, in Ler e escrever. Lisboa: INCM, 79-??.
  • (1987) Reler Sá de Miranda, in Ler e escrever. Lisboa: INCM.

Anos 90

  • (1995) Bibliografia camoniana: 1980-95, Românica: revista de literatura, Lisboa, n.º 4 (1995), 129-133. –  Sep., FLUL: CC 192 V.
  • (1995) O mais importante problema textológico da literatura portuguesa. Lisboa: Cosmos. – Sep. de: Românica: revista de literatura, Lisboa, n.º 4 (1995), 22 p.
  • (1995) O mar em Camões, Oceanos, n.º 23 (jul.-ago 1995), 54-65.
  • (1998) Recensão crítica a Lírica Camoniana. Estudos Diversos, de AA. VV. (1996) Colóquio/Letrasn.º 149/150 (jul. 1998), 450-451. 
  • (1996) A écloga em Camões e Sá de Miranda, Arquipélago / Línguas e Literaturas, XIV (1994-1996), 15-35.
  • (1997) Que farei eu com este poema?  Como evolui o projecto da epopeia ao longo d’Os Lusíadas, in Épica, épicas, épica camoniana / Maria Isabel Rebelo Gonçalves et al.. Constância: CIEC da Assoc. Casa-Memória de Camões; Lisboa: Cosmos, 55-70.

Anos 2000

  • (2007) Sá de Miranda: a construção de uma imagem exemplar. Má-fé e boa consciência, in And gladly wolde (s)he lerne and gladly teche: homenagem a Júlia Dias Ferreira. Org. Comissão Executiva do Dep. de Estudos Anglísticos; com a colab. dos Institutos de Cultura Inglesa e de Cultura Americana. Lisboa: Colibri, 599-605.

Anos 2010

  • (2011) Biografia de Luís de Camões, verbete, in Dicionário de Camões. Coord. Vitor Manuel de Aguiar e Silva.
  • (2011) Lusíadas (Os), extenso e profundo verbete, in Dicionário de Camões. Coord. Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Lisboa: Caminho. – Contém os seguintes entretítulos: “’Um eloquente silêncio do paratexto’; “A génese do poema e o género literário”; “Um tema dominante: armas e letras”; “O espírito antiépico”; “Nacionalismo e universalismo”; “Os ideais humanos”; “O heroísmo e os valores”; “Destino ou liberdade?”; “Realidade histórica e mitologia”; “Composição, narração, descrição”; “Classicismo ou Maneirismo?”; “Autor ou herói?”.
  • (2011) Sá de Miranda, Francisco, verbete, in Dicionário de Camões. Coord. Vitor Manuel de Aguiar e Silva.
  • (2011) Liberdade e destino na literatura portuguesa do renascimento, in Renascimentos na Europa do século XVI: formas, ritmos e convergências: actas do colóquio. Org. Mafalda Ferin Cunha, Maria de Jesus C. Relvas, Pedro Flor. Lisboa: Univ. Aberta. – Comunicação apresentada no Colóquio homónimo, orga. pela UA e que decorreu em Lisboa, na FCG, 11-12 de dez. 2008, sob o título “Liberdade e destino em Sá de Miranda e Luís de Camões”.
  • (2012) Lirismo e conhecimento em Camões, in Actas da VI reunião internacional de camonistas. Coord. Seabra Pereira; Manuel Ferro. Coimbra: Imprensa da Univ.,
  • (2014) Recensão crítica a Cinco Ensaios Circum-Camonianos, de Maria Luisa Meneghetti, Colóquio/Letrasn.º 187 (set. 2014), 260-262.
  • (2014) O mito de Camões e os ecos das suas obras na cultura contemporânea, palestra, in “Entre a Desmistificação e a Utopia: Interrogações sobre as Lusofonias” – conferência internacional, 23-23 de out. 2014, Macau, Univ. de São José.




Referências e alguns estudos acerca da obra de MVLM

  • Maria Vitalina Leal de Matos, verbete, in Dicionário cronológico de autores portugueses, vol. VI, Lisboa, 1999, disponível no site da DGLB.
  • MARTINHO Fernando J. B. (2015) Recensão crítica a Prosas desfocadas, de Maria Vitalina Leal de Matos (Faro: 4águas, 2013), Colóquio/Letrasn.º 188 (jan. 2015), 278-280.
  • PICCHIO, Luciana Stegagno (1984) Maria Vitalina Leal de Matos e o canto da poesia de Camões [crítica a O Canto na Poesia Épica e Lírica de Camões. Estudo da Isotopia Enunciativa], Colóquio/Letras, Lisboa, n.º 78 (mar. 1984), 78-80.
  • REAL, Miguel (2011) Recensão crítica a Camões. Este meu duro génio de vinganças, de Maria Vitalina Leal de Matos (Lisboa: Arcádia, 2011), Colóquio/Letras, n.º 178 (set. 2011), 226-230.
  • REAL, Miguel (2013) Recensão crítica a Camões: sentido e desconcerto, de Maria Vitalina Leal de Matos (Coimbra: CIEC, 2011), Colóquio/Letras, n.º 182 (jan. 2013), 265-268.
  • AA.VV (2007) Estudos: para Maria Idalina Resina Rodrigues, Maria Lucília Pires, Maria Vitalina Leal de Matos / org. Isabel Almeida, Maria Isabel Rocheta, Teresa Amado. Lisboa: FLUL.